Arquivo | outubro, 2011

Ler para ser: A Leitura transformando histórias.

24 out

 Falar da importância, dos benefícios e de todas as mudanças positivas que o Universo da Leitura nos proporciona pode se tornar simples clichê se não houver um aprofundamento maior no assunto.

Não basta dizer que a leitura é essencial na constituição do nosso acervo cultural, ou que ela proporciona “viagens” sem sair do lugar, aguça a imaginação e forma cidadãos críticos, capazes de contribuir para a evolução nacional. Tudo isso é êxito inquestionável do ato de ler, mas é preciso ir além. É preciso conhecer vidas, histórias e trajetórias que foram atravessadas e definitivamente modificadas por esse universo transformador que é a Leitura.

Pra começar, vamos contar a história de Robson César Correia de Mendonça.

Ex-morador de rua e sonhador, Robson sempre soube das dificuldades que as pessoas que vivem nas ruas enfrentam para ter acesso à leitura. Fatos como o de andar sempre com um saco de pertences pessoais e não possuir um endereço fixo impedem que os desabrigados possam ter um cadastro numa biblioteca ou até mesmo que possam entrar em uma.

Robson, já longe de tal realidade, presidia a ONG Movimento Estadual da População em situação de rua de São Paulo, quando o evento de plantio de uma árvore em frente à Biblioteca Mário de Andrade possibilitou seu encontro com Lincoln Paiva, presidente do Instituto Mobilidade Verde. Lincoln, então, ouviu o sonho de Robson de poder levar a leitura para os moradores de rua e teve a idéia, sustentável, de lhe presentear com uma bicicleta que funcionasse como biblioteca: A Bicicloteca

Hoje, Robson vê os livros da bicicloteca sendo lidos por várias pessoas nas ruas de São Paulo e já pode enxergar a esperança de um futuro melhor em cada um desses sujeitos que agora podem exercer também o importante papel de Leitores.

Abaixo, Robson Mendonça com a Bicicloteca e imagem de seu livro favorito:  A Revolução dos Bichos, de George Orwell.

Assim como os leitores da bicicloteca, muitos outros brasileiros enfrentam inúmeras dificuldades para ter acesso ao Universo da Leitura. Quilombolas, áreas de agricultura familiar ou de extração vegetal costumam não possuir nenhuma possibilidade de contato com livros devido às restrições físicas, pois geralmente são áreas de difícil acesso, muitas vezes apenas por barco.

Foi justamente dessa carência de recursos que uma parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e a ONG Nossa Casa tiveram a idéia de criar a “Barca das Letras”.

O projeto, implantado na reserva extrativista do Cajari, no Amapá, possibilitou que os trabalhadores de 13 comunidades da região pudessem ter acesso à cultura através da leitura dos livros que ficam dentro de uma espécie de “arca”.

Pra quem antes não tinha a mínima possibilidade de contato com esse universo dos livros, a alegria transbordou:

“Nas reuniões que antecederam a entrega, quando foram estipuladas as localidades que seriam atendidas nessa primeira etapa, podíamos notar a felicidade em cada rosto”, diz a analista ambiental Cristiane Gois.

Hoje já são mais de 220 títulos e 70 leitores assíduos: gente transformando sua história através do Mundo de possibilidades da Leitura.

Moradores de rua, agricultores e…crianças! Como não pensar nelas quando se aborda a capacidade de transformação que a Leitura pode proporcionar? Afinal, elas são, mesmo, o futuro de qualquer nação e, quanto mais cedo entrarem em contato com o Universo dos livros e do conhecimento, mais capacidade elas terão se tornar agentes transformadores, agentes leitores.

Vamos, então, conhecer a história de uma escola da Zona da Mata pernambucana, no distrito de Vitória de Santo Antão. Lá, até o ano retrasado, mais de 60% dos alunos chegava à quinta série sem ao menos saber ler e escrever. O contato com os livros não existia e as crianças viviam desmotivadas (as poucas que sabiam ler tinham preguiça).

Tal realidade só foi mudar em 2010, quando a escola recebeu diversos livros e possibilitou a leitura dentro da sala de aula: Agora, em cada classe existe um cantinho especial para os livros e um momento do dia exclusivo para lê-los.

E a criançada é pura motivação: Surgiram não só novos leitores, mas também novos escritores, poetas e ilustradores.

É o ler para ser, para transformar histórias. Alguém ainda duvida dessa capacidade da Leitura?

Aproveite o momento você também e vá ler um bom livro.

Até a próxima.

Proteção entre aspas.

13 out

É comum assistirmos nos filmes de ação americanos cenas protagonizadas pelo Programa de Proteção à Testemunha. Nesses filmes, a ficção não foge à realidade e apresenta mudanças de endereço, de identidade e, até mesmo, de fisionomia dos cidadãos protegidos pelo programa.

Nos Estados Unidos da vida real, todos esses procedimentos são efetuados pelo US Marshall`s Service, que existe desde 1789 e já protegeu mais de 6000 testemunhas.

Esse programa norte-americano tem sido, inclusive, desde 1960, período em que passou por mudanças, bastante eficiente no controle do crime organizado. Possui também um (natural) ônus financeiro, devido ao alto custo do investimento governamental na proteção às famílias. Mas funciona.

Bem diferente do que ocorre no “nosso” programa de proteção às testemunhas.

No Brasil, o responsável pela proteção dos cidadãos é o Provita, criado em 1999. O órgão, que deveria ser eficaz na delicada função de proteger a vida humana, é seriamente afetado por questões burocráticas, descaso dos governantes e até mesmo pelo vazamento de informações confidenciais.

Recentemente, documentos enviados pela Defensoria Pública da União ao Palácio do Planalto e à Secretaria dos Direitos Humanos relataram a história de mais uma vítima da ineficácia do Provita:

Antônio Maria (codinome), casado e com filhos, fez uma grave denúncia sobre um esquema de corrupção que envolvia desde policiais até juízes no Norte do Brasil. O caso dele foi entregue ao Provita e depois de algum tempo suas informações confidenciais, como a verdadeira identidade e a rotina diária da família, foram parar nas mãos dos inimigos.

Resultado: Antônio foi torturado, ameaçado e hoje se vê obrigado a viver num hotel sem saber como será o futuro.

Casos como esse são ainda mais possíveis devido à burocracia no momento da liberação das verbas destinadas às testemunhas. Falta dinheiro até mesmo para alugar uma casa para as famílias do programa e algumas entidades de direitos humanos se vêem obrigadas a realizar empréstimos ou pedir doações para manter as vítimas com o mínimo de recursos necessários.

Fatos assim só mostram o quanto um programa de tamanha responsabilidade carrega “proteção” só no nome. Não protege, literalmente. E, como em quase todos os setores mal-administrados no nosso país, só vai tentar corrigir tamanhos erros depois de muitos casos como o de Antônio Maria.

O vídeo abaixo mostra que esse total descaso no nosso programa de proteção à testemunha tem deixado conseqüências graves, mortais:

 

FONTES: http://www.ufsm.br/direito/artigos/penal/testemunhas.htm

http://www.istoe.com.br/reportagens/158511_CIDADANIA+AMEACADA

http://www.cartacapital.com.br/politica/burocracia-%E2%80%9Ctrava%E2%80%9D-servico-de-protecao-a-testemunhas

Opressão mortal.

2 out

14 anos de idade. Numa fase em que, segundo psicólogos, há uma intensa busca por afirmação como indivíduo, o jovem Jamey Rodemeyer se viu envolto numa verdadeira encruzilhada emocional.

Há alguns meses, Jamey criou uma página pessoal no site Fromspring. Lá, ele decidiu revelar que era bissexual. Lá também Rodemeyer, cuja intenção era a de procurar empatia e apoio, se viu “crucificado” por uma enxurrada de mensagens preconceituosas e violentas.

A mãe do garoto, inclusive, conta que após tal revelação a vida do filho teria ficado insuportável.

Insuportável a ponto de, no último dia 18, Jamey Rodemeyer ter chegado ao ponto de desistir de vez da própria vida com uma overdose de remédios.

O vídeo abaixo, feito pelo próprio Jamey numa tentativa de conscientização, revela o desabafo desse adolescente reprimido pela homofobia que insiste em cercar a sociedade. Ele tentou mostrar às pessoas que o mais importante era se aceitar e se amar da forma como se é. E o que recebeu foram ainda mais mensagens de ódio e preconceito.

Até quando outros “Jameys” terão que abdicar de suas vidas em nome dessa sociedade do ódio?

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