“Carcereiros”: a realidade vista de dentro

25 jul

Eu semprepena-de-morte fui a favor de pena de morte. Confesso que, inicialmente, sob grande influência do meu pai, um crítico espectador assíduo de telejornais sensacionalistas, com pouca crença na efetividade da justiça brasileira e indignação suficiente para ser favorável ao “olho por olho, dente por dente”.

Depois, eu mesma fui sendo levada pelo sentimento passional da justiça com as próprias mãos. Ficava indignada com a brutalidade das dezenas de crimes que assistia pela televisão e, pra mim, não havia pena à altura de tamanha selvageria, exceto a morte.

Muito exagero, admito. E até mesmo uma certa irracionalidade.

Um dia, porém, resolvi pesquisar o quê outras pessoas pensavam da pena de morte. Pesquisei na internet e li num artigo alguns fatos que me chamaram atenção. Coisas como a quantidade de casos mal solucionados, com pessoas levadas à pena capital injustamente (em especial as mais pobres), e estatísticas que mostram que o fato de um país aplicar pena de morte não necessariamente diminui seus índices de criminalidade.

Ainda não tinha mudado de ideia (e, na verdade, ainda não sei se mudei por completo), mas já começava, a partir daí, a imaginar que matar talvez não fosse mesmo a melhor solução, pelo menos não em um país como o nosso.

Depois de um tempo, coincidentemente, uma página de revista que curto no Facebook publicou uma matéria sobre a redução da alckmin-maioriade-penalmaioridade penal. Essa discussão surgiu depois da morte de um estudante na porta do prédio em que morava, assassinado por um menor que ia fazer 18 anos poucos dias depois. Todo mundo estava com os nervos à flor da pele, questionando até que ponto um adolescente não tem consciência de seus atos para não pagar por eles como um adulto qualquer. No artigo, o jornalista se posicionava contra a redução da maioridade penal. Porém, diferente dos especialistas que apelavam para fatores biológicos para serem contrários à redução da maioridade penal (coisas como o fato de o cérebro dos adolescentes e o senso do “certo e errado” ainda não estar plenamente desenvolvido até os 18 anos), este especialista afirmava ser contra a redução por fatores políticos: para ele, a “culpa” de tantos adolescentes estarem entrando na criminalidade está centrada na ausência de políticas públicas sérias voltadas para eles. A precariedade na saúde, na educação, no lazer, na cultura, enfim, a precariedade de todos os fatores políticos, econômicos e sociais que cercam esses jovens são os principais impulsionadores a levá-los para o crime. Em outras palavras, para o autor do artigo, a solução não estaria em diminuir a idade mínima para prender esses jovens, mas investir em políticas públicas que os afastassem da criminalidade.

carcereDepois de conhecer essa e outras opiniões sobre o assunto, tive a oportunidade de ler, através de uma loteria da editora Companhia das Letras em que tive meu blog sorteado, o livro “Carcereiros”, do Drauzio Varella. Recebi o livro em casa e comecei a ler aquela que se tornaria, sem sombra de dúvidas, uma das minhas obras favoritas. Um livro que me fez mudar de opinião.

Basicamente, se é que há como usar derivados da palavra “básico” para caracterizar “Carcereiros”, o livro traz relatos dos carcereiros do Carandiru e as próprias impressões e experiências vividas por eles e por Varella ao longo de mais de duas décadas frequentando cadeias:

Em “Estação Carandiru”, descrevi a vida na cadeia com o olhar do médico que atende homens obrigados a cumprir penas em gaiolas apinhadas, como se participassem de um experimento macabro. Neste livro, escrito treze anos mais tarde, tentarei fazê-lo da perspectiva dos homens que passam a vida a vigiar prisioneiros,

As histórias de heroísmo, os atos de generosidade, a corrupção, a covardia, a prática da tortura, o desapego à própria vida em benefício de outros, as maldades e os exemplos de dedicação ao serviço público que se seguem foram observados por mim ou contados pelos próprios carcereiros com quem tenho convivido.(p. 23)

Ao longo de cada página virada, mais eu me surpreendia com a emoção passada pelos relatos. “Carcereiros” foi um livro (o único até agora) que me fez chorar. A vida dentro de uma cadeia não é cercada de mordomias, como muitas vezes imaginamos ser. É claro que temos consciência de superlotação e outros problemas graves, mas nossa visão simplista (e talvez egoísta) sempre nos leva a pensar no comer-beber-dormir às custas do Estado. Varella descreve, no trecho abaixo, a chegada de um detento na prisão:

A admissão de novos detentos acontecia todo fim de tarde. Os homens desciam do camburão no pátio interno, conhecido como Divineia, para formar a fila que os levaria às celas coletivas do Dois, onde teriam o cabelo cortado rente nas têmporas, receberiam a calça cáqui que os identificaria e passariam várias noites dormindo no chão, colados uns aos outros, com os tênis ou as havaianas servindo de travesseiro, em meio às sarnas e à tosse alheia, até conseguir vagas nos demais pavilhões.

(…) A chegada de presos em qualquer cadeia é um espetáculo desolador; não tem a menor graça ver aquelas vidas – jovens na maioria e pobres na totalidade – desperdiçadas atrás das grades. Nada mais semelhante à imagem dos bois a caminho do matadouro. Apesar da melancolia que a cena me faz sentir, até hoje não consigo deixar de acompanhar essas admissões atento aos detalhes e às expressões individuais como se fosse possível desvendar o mal que eles fizeram, os dramas familiares e a agonia que lhes vai na alma ao deixar a liberdade para trás. (p. 51)

Além da privação de liberdade, fator com o poder de desencadear a loucura em qualquer ser, os presos convivem diariamente com a sujeira: a de caráter, de todos aqueles que o cercam (dos presos por pequenos furtos aos estupradores e assassinos da mais alta periculosidade), e a sujeira literal, como bem nos descreve Varella no trecho abaixo:

Nas celas dos Dms o ambiente era ainda mais desolador. Antes de abrir a primeira delas, o diretor de Segurança recomendou que eu me afastasse da porta para evitar que o bafo quente e azedo de seu interior impregnasse minha roupa, medida de pouca serventia, porque fiquei para sempre com a memória daquele odor ácido, úmido, espesso e pegajoso. Espremidos nos xadrezes, alguns presos falavam sozinhos, enquanto outros davam berros repetidos em intervalos regulares, choravam agachados nos cantos, andavam nus em pequenos círculos, vestiam frangalhos molhados de urina e dormiam no chão sob o efeito dos medicamentos psiquiátricos receitados sem critério. Nunca havia imaginado que a condição humana pudesse ser degradada a esse nível. (p. 64)

As cadeias são ambientes cinzentos, mesmo que não estejam pintadas dessa cor. A presença ostensiva das grades, das trancas e som de ferros das portas quando se fecham oprimem o espírito de forma tão contundente, que em mais de vinte anos jamais encontrei alguém que dissesse sentir prazer quando entra num presídio. Ao contrário, a sensação de alívio ao cruzar o portão que dá acesso à rua é universal. (p.115)

(…) Os homens passam o dia a esmo, fumando, deitados na cama, sentados no chão ou em rodinhas na quadra que separa as duas alas de celas. A falta do que fazer torna os dias intermináveis, como disse Paraná, um matador profissional que conheci no Cadeião de Pinheiros:

– Aqui, a noite é sem fim e o dia tem sessenta horas. (p. 131).

Como havia citado lá em cima, “Carcereiros” foi um livro que me fez mudar de opinião. E antes de dizer os porquês, gostaria de reiterar que os trechos acima são apenas mínimas demonstrações do ambiente hostil que é uma cadeia. O comer-beber-dormir ganhou outra dimensão pra mim e, pra quem até então achava que a única pena à altura de crimes brutais era a pena de morte, ficou muito claro o quanto uma penitenciária pode se transformar no pesadelo de qualquer criminoso: certamente, estar lá dentro, o tempo que for, é um castigo.

Além dos trechos citados acima, Drauzio chama atenção para o fato de que a justiça, no Brasil, só beneficia os ricos, e a polícia encontra enorme dificuldade para solucionar crimes (lembram do artigo que citei lá em cima sobre os riscos de se aplicar pena de morte num país como o nosso?). Além disso, ele faz questão de sublinhar o quanto somos hipócritas em nossas atitudes e pensamentos: adeptos do “bandido bom é bandido morto”, esquecemos que o protagonista de toda essa novela em torno da criminalidade é, na verdade, o Estado, que não oferece o mínimo de dignidade para seus cidadãos (entra aí de novo a alusão ao artigo que eu li sobre a redução da maioridade penal):

No Brasil, morosa e discricionária como é, a Justiça encontra enorme dificuldade para condenar os clientes de advogados com influência nos meios jurídicos, enquanto o aparato policial é incapaz de solucionar a maioria dos crimes que ocorrem pelo país afora. Ilustram a impunidade brasileira o fato de permanecerem em liberdade os que assaltam os cofres públicos e a constatação oficial de que nossas polícias esclarecem menos de 10% dos homicídios cometidos e uma parcela insignificante dos roubos e assaltos à mão armada. (p. 137)

A sociedade brasileira, que vive assustada com a violência urbana, é omissa e conivente com aquela praticada pelo Estado, desde que a classe média e os mais ricos sejam poupados.

(…) A filosofia do “bandido bom é bandido morto” tem inúmeros adeptos entre nós. O Massacre do Carandiru, em que perderam a vida 111 homens do pavilhão Nove, foi aplaudido por tantos, que o comandante da tropa responsável pela operação se elegeu deputado estadual, com um número de candidatura que terminava em 111, para que não pairassem dúvidas entre seus eleitores. (p. 145)

Foi por tudo isso que eu mudei de opinião. Ou melhor, estou mudando. Já não penso mais que a solução seja matar e nem que a cadeia não castigue à altura. Tenho, na verdade, pensado que o maior bandido de toda essa história usa terno e gravata e que, apesar de estarem sujeitos a erros, os indivíduos também podem se regenerar, desde que haja condições para isso, e, definitivamente, alguém num xadrez imundo, cercado de pós-doutores em criminalidade, sem as mínimas condições de uma possível reinserção na sociedade, não terá seu caráter restabelecido.

Políticos continuarão atuando aquém de suas responsabilidades. Bandidos continuarão surgindo. A população continuará não enxergando. O importante é que a bandidagem esteja sempre longe dos nossos olhos, jogadas nas penitenciárias brasileiras, fazendo pós-graduação em criminalidade. O ciclo sempre irá se renovar.

4 Respostas to ““Carcereiros”: a realidade vista de dentro”

  1. Mariana Guimarães 25/07/2013 às 11:07 PM #

    Confesso que fiquei assustada quando comecei a ler, pensando como alguem poderia ser a favor da pena de morte, mas parei pra pensar e percebi que existem muitas pessoas que pensam desta maneira. Mas fiquei feliz em ver o interesse que vc teve em se apronfundar no assunto e não ficar com o argumento pronto que os tele-jornais nos apresentam diariamente. Concordo que o descaso do estado piore muito a condição de vida dessas pessoas e das pessoas que ainda irão se tornar penitenciarios, mas acredito que a “culpa” desta condição seja gerada pelo sistema que hoje vigora, o capitalismo necessita de pessoas a margem do sistema para se manter, com ele não é possivel que todos tenham uma condição de vida que garanta a estrutura necessaria para um ser humano viver, por isso essas pessoas buscam de uma maneira não-benéfica compensar esse déficit, o ódio gerado por ele é devastador. Um ser humano que nasce e não tem casa, educação, saúde, cultura, lazer e ainda assiste a outras pessoas que possuem tudo isso e muito mais para esbanjar em sua vida, cria dentro de si um ódio que não conseguimos ter a dimensão, um ódio tão grande que ele ja não se importa em ser preso pelos seus atos, ja que não possui perspectiva alguma de vida. Essas pessoas são refens da condição social em que nasceram, pois o capitalismo não permite que elas mudem de posição, não oferece oportunidades e base para isso. O encarceramento, como dito no texto, não recupera essas pessoas, pelo contrario, aqueles que cometem pequenos crimes, como um furto de alimento, quando entram na penitenciaria se deparam com um mundo antes não conhecido e que ira lhe oferecer alternativas, mesmo que ruins, mas oferecem alguma perspectiva, fazendo com que essas pessoas se envolvam mais profundamente com o mundo do crime. Acredito que quando não tivermos mais uma desigualdade desta magnitude, não haverá mais a necessidade destas pessoas buscarem por meio da criminalidade aquilo que lhes é tirado. Outro fator que acho fundamental abordar neste tema é o esteriotipo dos presos, são sempre negros e pobres, é aí que vemos a herança histórica deixada no nosso país, os negros foram “libertos”, porem não tiveram condições de vida garantidas, assim como é hoje, nossa sociedade em nada mudou, aqueles que antes detinham o poder e as oportunidades para ter uma vida digna ainda são os mesmos, os brancos detentores de propriedades, os marginalizados continuam a ser os negros, até os capitães do mato não mudaram, pois geralmente são negros que servem para proteger seus senhores, como os policiais de hoje, que fazem parte do povo, mas garantem a segurança dos homens, brancos, ricos e detentores de propriedades. Necessitamos é de uma transformação profunda na estrutura da nossa sociedade, que não sera garantida pela manutenção e reforma do capitalismo, devemos buscar um novo sistema, que garanta as mesmas condições para todos.

    • vanialuciacoelho 26/07/2013 às 12:58 AM #

      Falou tudo, Mariana. É realmente essa a realidade que as desigualdades impostas pelo capitalismo tem nos causado. Obrigada pelo comentário. Volte sempre. =)

  2. Gustavo Henn 09/06/2014 às 10:52 PM #

    Muito bom o texto e a reflexão. O Brasil ainda tem que melhorar muito para ser algo justo.

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