2013: 1984

27 dez

Foi difícil ver esse cursor piscando na página em branco do Word e conseguir começar a escrever. Na verdade, acho que esse ato, o de escrever, se tornou mais difícil. Houve assuntos polêmicos sobre os quais eu até poderia postar algo, músicas das quais eu gostei, alguns bons livros lidos e eu até mesmo, finalmente, assisti à trilogia do Poderoso Chefão (e adorei), mas (e quanto “mas” eu tive esse ano!), apesar disso, parecia que sempre faltava um “toque” a mais pra realmente me motivar a escrever sobre um determinado assunto. Faltou motivação mesmo.

A verdade é que eu pensei muito no blog e no quê eu poderia compartilhar por aqui. O Google foi legal comigo, e, apesar da ausência de meses, meus views não caíram muito e, esporadicamente, alguém curtia a página do Palavroeiro no Facebook (para a minha alegria!)

Big-Brother-Is-Watching-You-94815124855Mas agora, com 2013 quase acabando e sem mais delongas e explicações, vou direto ao ponto: quero falar sobre 1984. Não o ano. O clássico do George Orwell.

Pra começar, imagine-se vivendo a realidade de uma ditadura que vigia não apenas seus atos, mas também seus passos, diálogos e, (pasmem!), seu pensamento. É nesse contexto, de um Estado totalitário e repressivo, representado pela figura do Grande Irmão, que vive Winston, o protagonista de 1984.

Quando o livro foi publicado, em 1949, o ano de 1984 ainda pertencia a um futuro distante. Muitos leram “1984” como uma crítica às ditaduras nazifascistas da Europa. Nos Estados Unidos foi visto como uma ficção dirigida contra o comunismo da União Soviética. Entretanto, o que se acredita que Orwell realmente tenha tido intenção de trazer à tona foi uma crítica sólida e inteligente a toda e qualquer forma de ditadura.

Característica típica de um clássico, “1984” é uma obra atemporal. Ainda hoje, podemos ver nossa sociedade muito bem representada nos trechos que podem facilmente aludir à diária manipulação a que somos submetidos pela mídia, ao constante estado de guerra em que se encontram países como os Estados Unidos e às grandes desigualdades de privilégios entre as camadas mais altas do governo e o povo, propriamente dito.

“1984” não é apenas mais um livro sobre política, mas uma metáfora do mundo que estamos inexoravelmente construindo. 19841Invasão de privacidade, avanços tecnológicos que propiciam o controle total dos indivíduos, destruição ou manipulação da memória histórica dos povos e guerras para assegurar a paz já fazem parte da realidade. Se essa realidade caminhar para o cenário antevisto em 1984 , o indivíduo não terá qualquer defesa. Aí reside a importância de se ler Orwell, porque seus escritos são capazes de alertar as gerações presentes e futuras do perigo que correm e de mobilizá-las pela humanização do mundo”.

Eu não poderia citar aqui todos os trechos importantes ou impactantes do livro, mas selecionei dois, mais especificamente, que me chamaram bastante atenção e que podem dar uma ideia não só da grandiosidade da obra, mas da monstruosidade representada pelo Ministério do Amor, responsável pelos julgamentos, confissões e torturas dos que traíram o partido por um ato, fala ou pensamento. Aqui vão:

“Ninguém sabia o que se passava dentro do Ministério do Amor, mas era fácil adivinhar: torturas, drogas, instrumentos delicados que registravam suas reações nervosas, desgaste progressivo em decorrência da falta de sono, da solidão, de interrogatórios incessantes. Os fatos, pelo menos, não podiam ser mantidos ocultos. Era possível desvendá-los por meio de investigações, extraí-los de você com o recurso da tortura. Mas… e se seu objetivo não fosse permanecer vivo, e sim permanecer humano? Que diferença isso faria no fim? Eles não tinham como alterar seus sentimentos: aliás, nem mesmo você conseguiria alterá-los, mesmo que quisesse. Podiam arrancar de você até o último detalhe de tudo que você já tivesse feito, dito ou pensado; mas aquilo que estava no fundo de seu coração, misterioso até para você, isso permaneceria inexpugnável”. (Orwell, 1949, p. 200)

 

“Não pense que se salvará, Winston, por mais absoluta que seja a sua rendição. Ninguém que tenha se desencaminhado foi poupado. E mesmo que resolvêssemos deixá-lo viver até o fim de seus dias, mesmo assim você jamais escaparia de nós. O que lhe acontecer aqui é para sempre. Tenha isso em mente desde já. Nós o esmagaremos, deixaremos você num estado do qual não há retorno. Vão lhe suceder coisas das quais você não poderia se recuperar nem se vivesse mil anos. Nunca mais lhe será possível ter sentimentos humanos comuns. Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais lhe será possível experimentar o amor, a amizade, a alegria de viver, o riso,a curiosidade, a coragem ou a integridade. Ficará oco. Vamos espremê-lo até deixá-lo vazio, e depois o preencheremos conosco mesmos”. (Orwell, 1949, p. 300)

 

“1984” é, portanto, um clássico moderno, atemporal, com uma forte crítica social que, ainda hoje, diz muito sobre a sociedade em que vivemos e aos aparatos lançados por seus líderes para nos manipular. Uma leitura quase obrigatória.

Pra quem não estiver a fim de ler, tem o filme completo, legendado, no YouTube. Vou disponibilizá-lo aqui.

 

 

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